terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lantejoulas da vida

                                
Esta noite sonhei com Sônia, uma moça que veio do interior do ES para trabalhar na minha casa. Há trinta anos. Era mulata , cabelos negros, lisos, dois olhos de esmeraldas e porte de rainha. Nos primeiros dias, topou minha proposta para aprender a ler. Em quinze dias descobriu os mistérios da leitura e da escrita e em um mes lia, de tal forma que matriculou-se no MOBRAL. Era um, curso para alfabetização de adultos do governo federal.
Com um ano de casa eu a vi chorando na cozinha. Perguntei o motivo.Ela  disse-me  que era noiva de um rapaz que havia ido para São Paulo e não dera mais notícias. Ela tinha o endereço da firma onde ele trabalhava como tratorista.

Então, propus eu escrever uma carta para ele, ela copiaria e mandaríamos para ele. Eu disse- lhe  que a carta seria tão boa que ele , ao receber, viria atrás dela. Ela sorriu desconfiada. Escrevi uma carta bem romântica, bem cheia de lero-lero, impossível do rapaz resistir, oras si... Ela copiou e mandou. Não antes de colocar , nas pontas, gotas de Chanel número cinco.

Quinze dias depois, bateram na porta e eu disse para ela: - É ele.
Corremos para a janela e , lá estava ele, de mala pequena na mão, magro, alto, moreno, cachos no cabelo curto  e  conferindo o endereço. Não deu outra.

Antes de marcar a data do casamento eu disse a ela para impor uma condição: Só iria para São Paulo se houvesse casa com sala, cozinha, quarto e banheiro interno. E assim foi. Eles casaram na catedral de Vitória e fui eu que ajeitei a calda do vestido branco, alugado.

Nunca mais a vi mas tenho saudades .

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