quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Doação de sangue

Fui doadora de sangue desde os meus  dezoito anos.Por décadas. Certa vez, passando em frente da Igreja São José, no centro de Belo Horizonte- MG, vi uma Komb para doadores, lá em cima, em frente à porta de entrada. Parei, doei e fiquei sabendo o tipo de meu sangue, universal.
Naquele tempo a agulha era comum, entupia , precisava tirar da veia e furar outra vez. O sangue caía em um vidro marrom e precisava ser balançado, continuamente. O sistema foi aprimorando-se  com os doadores recebendo lanches, as cadeiras modernas e os consoles com os saquinhos com sangue, receberam aparelho para misturar tudo.

Mais tarde, morando em Vitória- ES, eu atendia chamados que eram feitos pela televisão, quando precisavam de sangue nos hospitais. Saía, às vezes, tarde da noite para ir longe, atender pedidos, sob protestos de perigo do meu marido. Não foram poucas as vezes em que familiares de sinistrados me abraçavam, emocionados, para agradecer. Quando não eram pais agradecidos porque seus filhos haviam nascido com incompatibilidade sanguínea com a mãe e precisavam mudar o sangue. Uma ou outra vez doei sangue sem obedecer o prazo porque sangue universal vale para tudo e ficava satisfeita  ao receber telefonema do hospital.

De certa feita,fui levar minha empregada para fazer o prénatal na Santa Casa de Vitória-ES e aproveitei o tempo de espera para doar sangue. Lá havia um rapazinho, chorando com a agulha no braço porque havia entupido e o sangue sujou o lençol na segunda agulhada. Eu brinquei com ele que eu , com quarenta anos, era mais forte do que ele e recebi um dos melhores elogios da minha vida.Ele arregalou os olhos espantados, duvidou da minha idade,e, ante minha insistência, disse: - Se um dia eu tiver uma mulher tão gata como você nesta idade, estou feito!

No Hospital das Clínicas de Vitoria-ES eu  encontrava-me  com o sr.Roque, que tinha cicatrizes no mesmo lugar na veia de tanto doar sangue e passei a buscar a mesma meta.

Um dia,passando em frente da Hemominas em Belo Horizonte-MG, resolvi entrar para fazer minha doação. Fui entrevistada por uma médica, que reconheceu meu sobrenome, perguntou se eu era parente de fulano e confessou-me ter sido apaixonada por meu tio na Escola de Medicina. Brinquei com ela que não havia nenhuma novidade, pois toda mulher disponível de Belo Horizonte, à época, fora apaixonada por ele.

Dias depois, fui chamada para comparecer na Hemominas porque eu era portadora de hepatite (aquela transmitida por relação sexual, pode-se dizer por putas) e que eu devia ir urgente ao médico X         ( deram-se seu cartão). Definitivamente, não aceitei o diagnóstico pois eu jamais tive hepatite e, na ocasião, corria todos os dias na Avenida dos Bandeirantes, BH, com Maria Luizinha. Exigi falar com a médica que havia me entrevistado.Ela mandou colher meu sangue. Deu negativo. Retornei ao mesmo indivíduo e ele  tratou-me  como cachorro, disse-me  que ali não precisavam de sangue contaminado nem de gente doente, que nunca vira alguém brigar para doar sangue. Não quis ouvir meus argumentos e enchotou- me de sua sala, na frente de outros na sala de espera.

Nunca mais doei sangue mas fiz novos exames e nunca deram  vestígios de suposta hepatite que eu tive algum dia. Recentemente, mamãe operou e pediram para doar sangue e eu fui com meu filho na Hemominas.Estou cadastrada lá como impedida de doar sangue.Fico doente só de pensar.Fiz novo exame à busca de vestígios de hepatite e o médico disse-me  que eu posso doar quando quiser.

Para mim, houve um golpe do funcionário da Hemominas. Ele manda as pessoas ao médico para levar vantagem.É corrupção pura.O cara cobra o tratamento e ambos dividem a grana.Só sei que, ao ver estas campanhas para doação de sangue que passam na televisão, sinto ímpedos assassinos.Décadas como doadora, perdidos na raiva e arrependimento que sinto hoje, entre tantas coisas absurdas que vivemos durante nossa vida.Doação de sangue é coisa de voluntários, um estilo de vida e faltar o respeito com um doador de sangue devia dar cadeia para o funcionário, ainda mais quando é veículo de corrupção.

Que corram atrás de doadores, acho bom que faltem muitos.Eu nunca mais doarei uma gota sequer.A humilhação que passei não tem cabimento  para uma pessoa humilíssima. Ainda mais eu orgulhosa de ter saúde de ferro e doar, exatamente, por isso.Façam campanhas, eu mudarei de canal...

2 comentários:

Engraçadinha disse...

Engraçadão tb é doador. Mas vc é foi muito mais!

Patrícia disse...

Considero sua revolta muito justa, é um absurdo privar uma pessoa saudável de doar e uma doente de receber. Porém não se pode chegar ao extremo de dizer "espero que falte". São vidas em jogo, vida de pessoas que não tem nada a ver com a confusão e que podem ser próximas a você também. Respira, conta até dez e produra ajudar de outra maneira. Eu sei que não deve ser nada fácil, mas no fim das contas o que vale é fazer o bem a alguém. E isso você parece gostar muito de fazer não é? Abraços