terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Canção do exílio

- Subi e desci essa escada, Maria Ortiz, por mais de década e meia. Ela  vai  dar no forum. Em Vitória/ES
                                      
As punições aos terroristas de farda, escondidos debaixo da saia das mulheres, precisa ser exemplar. A repercussão da atitude das mulheres, umas doidas irresponsáveis, aconteceu somente no RJ. É que as populações são muito ligadas, especialmente na área da polícia militar. Muitos PMs do ES são cariocas e não é raro migrantes daquele estado, bem como turistas.

O resto do Brasil não se importa porque ninguém se importa com um estado nanico, merreca que não soma nada na federação. A maior burrada que fiz na vida foi migrar para o ES, saindo de MG. Não acredito que tive a capacidade de amar um homem a esse ponto. Eu que treinei a minha mente a não me apegar a nada, nunca pensei em casar-me, fui capaz de sair de Belo Horizonte para morar em Vitória de mala e cuia porque casei-me. Às vezes penso que foi meu DNA, forjado na imigração de europeus e no antepassado dos bandeirantes que não pensaram duas vezes em mudar de vida e começar uma nova em lugar desconhecido. Como assim? Tenho ânsias de estapear-me.
Minhas amigas que casaram-se com capixabas, na mesma ocasião, todas voltaram, só eu fiquei. Talvez tenha sido porque papai nunca deu cobertura para erros dos filhos. Ele dizia que na frente lá de casa tinha um mata-burros. Mas visitou a fazenda dos pais do meu namorado, na época, para conhecer quem eram, quando viu que meu namoro era para valer. Ele que nunca viajou para lugar nenhum. Dizia para mim que eu estava namorando uma ave de arribação e que eu ia receber o convite de casamento dele quando ele formou-se e foi para Vitória. Não faltou quem me dissesse para não vir para o ES pois minha chance de ter sucesso na profissão era pequena porque o lugar era atrasado e o mundo jurídico muito medíocre. Lugar de pistoleiros e grupelhos ignorantes onde a mulher era nada.
O Brasil não é fácil para ninguém e as diferenças entre a cultura, classes sociais é muito grande mas em certos lugares é capaz de triturar sua alma. Não pude retroagir nem antes e nem depois. 

Tive uma cliente cujo avô era austríaco, tocava violino em uma orquestra de Viena. Ele imigrou para o Brasil e foi morar em Linhares/ES quando ainda havia a Mata Atlântica. Fizeram uma casa quase no meio da mata e ouviam os rugidos das onças pintadas. À noite ele embrenhava pela mata, tocando violino. Morreu em pouco tempo, completamente doido, falando sozinho e dando socos na cabeça.

A vida é olhar para frente mas uma pessoa que vive em um lugar mais adiantado, onde tem suplementos importantes da civilização, não deve ir morar em lugar mais atrasado. Esses imigrantes dos quais sou descendente, saíram de lugares miseráveis onde eram tratados qual lixo. É diferente.
Enquanto meu marido era vivo tudo valia e depois não dava para voltar atrás. Não sei como eu faria hoje e fiz o que fiz porque fiz. A sorte foi lançada e  meu filho mais novo diz que estou presa a uma Belo Horizonte que não existe mais e que Guarapari, se comparada com outros lugares, é o paraíso. Ninguém vive a vida de outro e ele não sabe da missa um terço. Viver em um lugar onde você não tem um parente, uma pessoa com ligação direta, dependendo da boa vontade de um ou outro em caso de urgência e onde a indiferença é a tônica não é coisa para gente com a cabeça boa. Durante algum tempo, depois que meu marido morreu, enquanto meus filhos eram menores, eu tinha medo que alguém me matasse, em uma terra onde isso não é raro,  e que jogassem meu corpo no mangue e ninguém iria me encontrar. Ainda mais com uma profissão exercida por mulher em lugar misógino. Ainda tenho.
Guarapari talvez seja  diferente, é um lugar com gente civilizada mas fiquei exilada em Vitória por décadas. Tenho ânsias de vômito quando me lembro daquele pessoal e da capacidade de ser perverso de sua gente. São os piores turistas de Guarapari, não respeitam nada e nem ninguém. 

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