terça-feira, 16 de maio de 2017

Uma pesquisa, um alerta

- E, quem precisa  que eles arrumem camas ?

Li, não sei aonde, o resultado de uma pesquisa, onde setenta por cento das pessoas não arrumam suas próprias camas. Acordam e dormem em uma mesma situação.

Eu não me lembro de  ter visto uma cama sem estar arrumada tão logo levantasse. Mesmo na minha infância e com minha mãe muito longe da mania de casa ajeitadinha. 

Uma vez, eu fui a um banco em uma agência merreca de bairro, e a porta estava fechada. Eu tentei abrir, procurei onde estava  o trinco, segurei em um suporte pensando ser ali, quando um homem do lado de dentro abriu a porta e perguntou, muito nervoso, se eu pretendia derrubar a porta. Não falava brincando mas grosseiro à beça.
Era em um tempo em que eu tinha meu pensamento muito rápido  e pouco tempo para ter paciência. Por isso, retruquei que ele adivinhou, eu queria mesmo colocar tudo abaixo.
Talvez, não tenha percebido que o banco estava fechado, talvez fosse intervalo para o almoço, embora não fosse meio dia nem uma hora. Só sei que a moça do caixa estava no lugar e me atendeu enquanto o sujeito sentou-se em uma mesa e, de lá, ficou dizendo qualquer coisa. A moça do caixa disse para não me importar porque ele era grosseiro com todos. Ele falava e falava e a moça constrangidíssima. Não entendi o que ele dizia e podia dizer a vontade porque não dou a mínima para ataques pessoais e prefiro não saber para não reagir. E, foi o que eu fiz, quando ele, ainda falando, ficou de pé. O dinheiro já estava na minha mão e eu já ia saindo. Não havia mais ninguém no banco e portanto achei que poderia fazer meu discurso:

- O senhor não sabe quem sou eu, não me conhece, não sou mulher da sua família que atura suas grosserias e nem funcionária que não pode reagir. Mas que fique bem claro, meu senhor, não tomo conhecimento nenhum do que pensa e fala um  homem que sequer arruma a sua própria cama.

Ele calou-se, arregalou os olhos e eu fui embora. 

Eu não quis ofendê-lo, meu discurso era de desprezo porque eu estava criando meus filhos sem ajuda de absolutamente ninguém, dormindo cinco horas por dia, trabalhando em três lugares, com dupla jornada de trabalho, meus filhos praticamente sozinhos a ponto de eu comprar Brisa - uma pincher zero, caramelo - para fazer companhia para eles. Arrumar as camas era a primeira coisa que eu fazia todos os dias e nunca vi um homem fazer isso. A expressão tornou-se meu discurso de protesto pelo trabalho doméstico imposto sem ajuda de ninguém.

Então, esse fato de arrumar camas, quando li que somente trinta por cento das pessoas o fazem, foi uma espécie de símbolo, um alerta de como levo tudo muito a sério.

Ainda há tempo de eu mudar. 

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